quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

POLÍCIA FEDERAL: UMA GESTAPO A SERVIÇO DO GOLPE

Juíza Raquel Vasconcelos Alves de Lima manda tropas para invadir UFMG
A invasão da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) por tropas especiais da Polícia Federal, a mando de uma juíza ególatra e de ideologia fascista, sacramenta de uma vez, para os que tinham dúvida, a natureza ditatorial do golpe de Estado.

Uma SP crua.
Nenhuma ditadura sobrevive à liberdade de pensamento e de sua expressão, por essa razão todos os regimes autoritários atiram seus cães raivosos sobre as universidades. Esse episódio é mais um de uma sequência perversa de arbitrariedades cometidas pela PF, sempre articulada com juízes afoitos em atropelar as garantias constitucionais e aparecer na imprensa.

A tarefa democrática mais importante a ser realizada tão logo o golpe de Estado seja debelado é o desbaratamento da estrutura fascista no interior do Judiciário e da Polícia Federal, por meio de uma reforma radical que ponha na cadeia os chefes dessa cadeia de comando criminosa.

PS.: Na manhã de hoje, a PF voltou a invadir a Universidade Federal de Santa Catarina. Não se trata apenas de provocação, mas de estratégia deliberada de amordaçar os possíveis focos de resistência, entre os quais se encontram as Universidade Públicas Federais, incentivadas por Lula e Dilma.

MANIFESTO EM DEFESA DO ESTADO DE DIREITO E DA UNIVERSIDADE PÚBLICA NO BRASIL (Enviado por Gilson Rocha)

Nós, intelectuais, professores, estudantes e dirigentes de instituições acadêmicas, vimos a público manifestar nossa perplexidade e nosso mais veemente protesto contra as ações judiciais e policiais realizadas contra a universidade pública que culminaram na invasão do campus da UFMG e na condução coercitiva de reitores, dirigentes e administradores dessa universidade pela Polícia Federal no dia 6 de dezembro de 2017.

O Brasil, nos últimos anos, vivencia a construção de elementos de exceção legal justificados pela necessidade de realizar o combate à corrupção. Prisões preventivas injustificáveis, conduções coercitivas ao arrepio do código penal tem se tornado rotina no país.

Neste momento amplia-se a excepcionalidade das operações policiais no sentido de negar o devido processo legal em todas as investigações relativas à corrupção violando-se diversos artigos da Constituição inclusive aquele que garante a autonomia da universidade.

É inadmissível que a sociedade brasileira continue tolerando a ruptura da tradição legal construída a duras penas a partir da democratização brasileira em nome de um moralismo espetacular que busca, via ancoragem midiática, o julgamento rápido, precário e realizado unicamente no campo da opinião pública.

Nos últimos meses, essas ações passaram a ter como alvo a universidade pública brasileira. Cabe lembrar aqui que a universidade pública, diferentemente de muitas das instâncias do sistema político, está submetida ao controle da CGU e do TCU, respeita todas as normas legais e todos os princípios da contabilidade pública em suas atividades e procedimentos. Portanto, não existe nenhum motivo pelo qual devam se estender a ela as ações espetaculares de combate à corrupção.

A universidade pública brasileira tem dado contribuições decisivas para o desenvolvimento da educação superior, da pós-graduação, da ciência e tecnologia que colocaram o Brasil no mapa dos países em desenvolvimento. Somente universidades públicas brasileiras estão entre as 20 melhores instituições de ensino e pesquisa da América Latina, de acordo com o Times Higher Education Ranking. A UFMG, sempre bem colocada nesses rankings internacionais, possui 33.000 alunos de graduação, 14.000 alunos de pós-graduação, conta com 75 cursos de graduação, 77 cursos de mestrado e 63 cursos de doutorado. Além de sua excelência em educação e pesquisa, a UFMG se destaca por suas ações de assistência e extensão nas áreas de saúde e educação.

Nesse sentido, intelectuais e membros da comunidade universitária exigem que seus dirigentes sejam respeitados e tratados com dignidade e que quaisquer investigações que se mostrarem necessárias com relação a atividades desenvolvidas na universidade sejam conduzidas de acordo com os princípios da justiça e da legalidade supostamente em vigência no país e não com o objetivo da espetacularização de ações policiais de combate à corrupção. Está se constituindo uma máquina repressiva insidiosa, visando não só coagir, mas intimidar e calar as vozes divergentes sob o pretexto de combater a corrupção. Seu verdadeiro alvo, porém, não é corrupção, mas o amordaçamento da sociedade, especialmente das instituições que, pela própria natureza de seu fazer, sempre se destacaram por examinar criticamente a vida nacional.

Não por acaso o alvo dessa violência contra a universidade e seus dirigentes foi exatamente um memorial que tenta recompor os princípios da justiça e do estado de direito extensamente violados durante o período autoritário que se seguiu ao golpe militar de 1964. O Memorial da Anistia tem como objetivo explicitar os abusos autoritários perpetrados nesses anos de exceção porque apenas a sua divulgação permitirá que as gerações futuras não repitam o mesmo erro.
Nesse sentido, intelectuais, professores e estudantes conclamamos todos os democratas desse país a repudiarem esse ato de agressão à justiça, à universidade pública, ao estado de direito e à memória desse país.

*Assinam:*

Paulo Sérgio Pinheiro_ (ex ministro da secretaria de estado de direitos humanos)
Boaventura de Sousa Santos_ (professor catedrático da Universidade de Coimbra)
André Singer_ (professor titular de ciência política usp e ex-secretário de imprensa da presidência)
Ennio Candotti_ (ex-presidente e presidente de honra da SBPC)
Newton Bignotto_ (professor do Departamento de Filosofia da UFMG)
Leonardo Avritzer_ (ex-presidente da Associação Brasileira de Ciência Política)
Fabiano Guilherme dos Santos_ (presidente da ANPOCS)
Maria Victória Benevides_ (professora titular da Faculdade de Educação da USP)
Roberto Schwarz_ (professor titular de Literatura da Unicamp)
Renato Perissinoto_ (presidente Associação Brasileira de Ciência Política)
Fábio Wanderley Reis_ (professor Emérito da UFMG)
Cícero Araújo_ (professor do Departamento de Ciência Política da USP)
Sérgio Cardoso_ (professor do Departamento de Filosofia da USP)
Marilena de Souza Chauí_ (professora titular do Departamento de Filosofia da USP)
Fábio Konder Comparato_ (professor Emérito da Faculdade de Direito da USP)
Angela Alonso_ (professora do Departamento de Sociologia da USP)
Juarez Guimarães_ (professor do Departamento de Ciência Política da UFMG)
Michel Löwyv_ (pesquisador do CNRS, França)
Adauto Novaes_ (Arte e Pensamento)
Maria Rita Kehl_ (psicanalista)
Thomas Bustamante_ (professor da Faculdade de Direito da UFMG)
Lilia Moritz Schwarcz_ (professora do Departamento de Antropologia da USP)
Gabriel Cohn_ (ex-diretor da Faculdade de Filosofia da USP)
Marcelo Cattoni_ (professor da Faculdade de Direito da UFMG)
Amélia Cohn_ (professora do Departamento de Medicina Preventiva da USP)
Dulce Pandolfi_ (Historiadores pela Democracia)
Oscar Vilhena Vieira_ (Diretor e professor da Faculdade de Direito da FGV-SP)
Bruno Pinheiro Wanderley Reis_ (Vice-diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas - Fafich e professor do Departamento de Ciência Política da UFMG)

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O partido que manda na escola privada


A realidade da escola privada, com ou sem "Escola sem Partido," é diferente da pública. Na rede privada há reprovação, não há progressão continuada na sua versão perversa: aprovação automática. Ao final do ano letivo, todas as escolas, inclusive as públicas, realizam (ou deveriam) o Conselho de Classe. A diferença é que nas públicas ele deveria tratar dos problemas de aprendizagem dos alunos com déficit (estratégias de atendimento, inclusão, reinclusão etc.), enquanto nas privadas está em pauta estritamente a recuperação de notas anuais ou a retenção dos que não obtiveram média determinada pelo Regimento Escolar.

A rede privada é grande em todos os estados, e não atende só a elite. Uma grande fatia da classe trabalhadora põe seus filhos em escolas privadas de mensalidade acessível. Quando um jovem dessa rede apresenta problemas, ele vai sendo empurrado de escola em escola e vai sendo "reclassificado", sem que nenhum trabalho efetivo seja feito em seu proveito.

Aluno que vai para o Conselho de Classe na rede privada é porque está pendurado na brocha. A situação da educação é tal que, para se tornar alvo de apreciação do colegiado de professores, o aluno tem que ter contribuído com a lei da gravidade durante o ano todo, além de ter pendurado uma bigorna no pescoço na hora derradeira do último bimestre escolar e gritado “Jerônimooooo”.

Mas a questão não é essa. A questão é que nesse colegiado as paixões com frequência se transmutam em Flautista de Hamelin e, perdida toda a objetividade, alguém sempre puxa a fila dos que serão afogados com bigorna e tudo, como os camundongos da fábula.

O diretor tira o corpo da parte que cabe à gestão escolar no latifúndio do fracasso escolar, o coordenador discorre sobre tudo que fez para salvar as almas do purgatório e alguns docentes incorporam o espírito de Robespierre, quando não o de Freddy Krueger.

No final das contas, para justificar a reunião e o protocolo exigido pela burocracia institucional do Estado, alguns serão guilhotinados simbolicamente, não sem antes terem suas vidas fora dos portões e muros da escola escarafunchada por alguns paladinos da ordem e da moral. É o famoso “Que sirva de exemplo”. Assim é feita a salsicha.

Com frequência, nesse circo romano, alunos com desempenhos semelhantes têm destinos diversos. Perdida a objetividade de uma escola que não dá soluções a conflitos explícitos diários e não assume sua grande parcela de culpa no fracasso escolar, ao final do ano, com relação à faixa de alunos de desempenho insatisfatório, aponta-se o polegar para baixo em relação àquele que provocou mais antipatias, e o polegar para cima àquele que, se não produziu e mesmo dormiu durante as aulas, ao menos não tumultuou o recinto.

Nas decisões mais difíceis, em que a análise de conjunto e a objetividade deveriam ser convocadas, o que move o polegar para baixo ou para cima é a bile. Sob esse aspecto, a famigerada "Escola sem Partido" é uma idiotice que nem as escolas privadas engolem, pois o partido nelas é o de seus donos - e não é nenhum farisaico MBL ou um patológico Fernandinho Holyday que vão expulsar delas o partido do dono, que tem como contraponto da bile supracitada o dinheiro da mensalidade - e quem dá a palavra final é este.

Fui duro? Sou de Sagitário. Custou, mas assumi minha condição meio homem, meio cavalo. Infelizmente, quem é desse signo, meu caso, vai de uma metade à outra sem transição.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

domingo, 26 de novembro de 2017

POESIA DE MÚLTIPLAS FRONTEIRAS E CONFRONTOS

Pé de Ferro & Outros Poemas, de Adalberto Monteiro, é um país de múltiplas fronteiras, no sentido simbólico, mas também no geográfico. Faz fronteira com o amor-carne, mas também com o amor-sonho, o amor-irmão, o amor-intimidade, o amor-distância, o amor-desamor. Na poesia de Pé de Ferro há uma fronteira com o trabalho, outra com a diversão; uma com a dor, outra com o prazer; uma com a experiência, outra com a linguagem; com a surpresa, outra com o susto; uma com o olho, outra com a saliva. Mas há também miríades de fronteiras geográficas: gente com gente, rua com rua, bairro com bairro... E as que cada qual, vindo de diversas partes do Brasil e do mundo, traz dentro de si, fronteiras íntimas, ambulantes, acalentadas ou rejeitadas, acolhidas com inexplicável fraternidade ou cuspidas com sarcasmo por uma metrópole a um tempo sedutora e crua.

Há carioca, baiano, belo-horizontino, teresinense e até goianiense da gema, mas não há paulistano da gema. Isso porque que o nativo da cidade de São Paulo é apenas um entre as milhares e diversas identidades que compõem a metrópole.

Amálgama de sonhos e frustrações locais e de todas as partes do Brasil e do mundo, São Paulo não solda essas miríades de identidades sem antes triturá-las em suas relações sociais truculentas, em suas ruas de trânsito caótico, em sua atmosfera carregada de poluição e ruídos perturbadores. Noutras palavras, quem nasce em São Paulo ou vem para São Paulo nasce e vem para ser moído – e só depois colado, em fragmentos, se possível.

Adalberto Monteiro, poeta que no caco solto antevê o mosaico de identidades truncadas, recolhe neste Pé de ferro & outros poemas os fragmentos mal soldados que, ao se despregarem da colcha de retalhos algo rota da metrópole e do mundo, caíram-lhe às mãos como migalhas crocantes de pão fresco.

O pombo, que integrado à cidade, anda e, só depois de chutado, se lembra de que é ave e volta a voar – é uma dessas migalhas. Dois meninos, na falta de bola, chutando garrafa pet, enxotados da porta de um bar na rua Aurora – são mais duas migalhas. Do comerciante que dá seu bom dia com sua amabilidade de caixa registradora – caem mais algumas migalhas, estas, sórdidas. O sorvete a escorrer da boca da moça no verão derretente; o amor que se reconheceu multiplicado no perdão; a bala de hortelã trocada no beijo são outras tantas, estas, santas.

Porém há as migalhas do mundo: as que se desprendem do pão das Minas Gerais e do Araguaia, da Venezuela e de Cuba. A todas Adalberto apara com suas mãos de poeta e oferece ao leitor com a verdade e a potência dos versos escritos em guardanapos. Aliás, como registrou Milton Nascimento, a propósito dos poetas de sua cidade – esses catadores de migalhas, que não querem medalhas, nem tambores nem trombetas.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.