quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O partido que manda na escola privada


A realidade da escola privada, com ou sem "Escola sem Partido," é diferente da pública. Na rede privada há reprovação, não há progressão continuada na sua versão perversa: aprovação automática. Ao final do ano letivo, todas as escolas, inclusive as públicas, realizam (ou deveriam) o Conselho de Classe. A diferença é que nas públicas ele deveria tratar dos problemas de aprendizagem dos alunos com déficit (estratégias de atendimento, inclusão, reinclusão etc.), enquanto nas privadas está em pauta estritamente a recuperação de notas anuais ou a retenção dos que não obtiveram média determinada pelo Regimento Escolar.

A rede privada é grande em todos os estados, e não atende só a elite. Uma grande fatia da classe trabalhadora põe seus filhos em escolas privadas de mensalidade acessível. Quando um jovem dessa rede apresenta problemas, ele vai sendo empurrado de escola em escola e vai sendo "reclassificado", sem que nenhum trabalho efetivo seja feito em seu proveito.

Aluno que vai para o Conselho de Classe na rede privada é porque está pendurado na brocha. A situação da educação é tal que, para se tornar alvo de apreciação do colegiado de professores, o aluno tem que ter contribuído com a lei da gravidade durante o ano todo, além de ter pendurado uma bigorna no pescoço na hora derradeira do último bimestre escolar e gritado “Jerônimooooo”.

Mas a questão não é essa. A questão é que nesse colegiado as paixões com frequência se transmutam em Flautista de Hamelin e, perdida toda a objetividade, alguém sempre puxa a fila dos que serão afogados com bigorna e tudo, como os camundongos da fábula.

O diretor tira o corpo da parte que cabe à gestão escolar no latifúndio do fracasso escolar, o coordenador discorre sobre tudo que fez para salvar as almas do purgatório e alguns docentes incorporam o espírito de Robespierre, quando não o de Freddy Krueger.

No final das contas, para justificar a reunião e o protocolo exigido pela burocracia institucional do Estado, alguns serão guilhotinados simbolicamente, não sem antes terem suas vidas fora dos portões e muros da escola escarafunchada por alguns paladinos da ordem e da moral. É o famoso “Que sirva de exemplo”. Assim é feita a salsicha.

Com frequência, nesse circo romano, alunos com desempenhos semelhantes têm destinos diversos. Perdida a objetividade de uma escola que não dá soluções a conflitos explícitos diários e não assume sua grande parcela de culpa no fracasso escolar, ao final do ano, com relação à faixa de alunos de desempenho insatisfatório, aponta-se o polegar para baixo em relação àquele que provocou mais antipatias, e o polegar para cima àquele que, se não produziu e mesmo dormiu durante as aulas, ao menos não tumultuou o recinto.

Nas decisões mais difíceis, em que a análise de conjunto e a objetividade deveriam ser convocadas, o que move o polegar para baixo ou para cima é a bile. Sob esse aspecto, a famigerada "Escola sem Partido" é uma idiotice que nem as escolas privadas engolem, pois o partido nelas é o de seus donos - e não é nenhum farisaico MBL ou um patológico Fernandinho Holyday que vão expulsar delas o partido do dono, que tem como contraponto da bile supracitada o dinheiro da mensalidade - e quem dá a palavra final é este.

Fui duro? Sou de Sagitário. Custou, mas assumi minha condição meio homem, meio cavalo. Infelizmente, quem é desse signo, meu caso, vai de uma metade à outra sem transição.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

2 comentários:

  1. Jeosafa,

    Muito bom mesmo. Esse é o verdadeiro retrato da educação brasileira.

    Abraços.

    Marcelo Fontana (do Sizanga)

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    1. Olá, Marcelo. Se o golpe nos agride, é porque somos decisivos. Vamos responder fogo com fogo.

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