domingo, 26 de novembro de 2017

POESIA DE MÚLTIPLAS FRONTEIRAS E CONFRONTOS

Pé de Ferro & Outros Poemas, de Adalberto Monteiro, é um país de múltiplas fronteiras, no sentido simbólico, mas também no geográfico. Faz fronteira com o amor-carne, mas também com o amor-sonho, o amor-irmão, o amor-intimidade, o amor-distância, o amor-desamor. Na poesia de Pé de Ferro há uma fronteira com o trabalho, outra com a diversão; uma com a dor, outra com o prazer; uma com a experiência, outra com a linguagem; com a surpresa, outra com o susto; uma com o olho, outra com a saliva. Mas há também miríades de fronteiras geográficas: gente com gente, rua com rua, bairro com bairro... E as que cada qual, vindo de diversas partes do Brasil e do mundo, traz dentro de si, fronteiras íntimas, ambulantes, acalentadas ou rejeitadas, acolhidas com inexplicável fraternidade ou cuspidas com sarcasmo por uma metrópole a um tempo sedutora e crua.

Há carioca, baiano, belo-horizontino, teresinense e até goianiense da gema, mas não há paulistano da gema. Isso porque que o nativo da cidade de São Paulo é apenas um entre as milhares e diversas identidades que compõem a metrópole.

Amálgama de sonhos e frustrações locais e de todas as partes do Brasil e do mundo, São Paulo não solda essas miríades de identidades sem antes triturá-las em suas relações sociais truculentas, em suas ruas de trânsito caótico, em sua atmosfera carregada de poluição e ruídos perturbadores. Noutras palavras, quem nasce em São Paulo ou vem para São Paulo nasce e vem para ser moído – e só depois colado, em fragmentos, se possível.

Adalberto Monteiro, poeta que no caco solto antevê o mosaico de identidades truncadas, recolhe neste Pé de ferro & outros poemas os fragmentos mal soldados que, ao se despregarem da colcha de retalhos algo rota da metrópole e do mundo, caíram-lhe às mãos como migalhas crocantes de pão fresco.

O pombo, que integrado à cidade, anda e, só depois de chutado, se lembra de que é ave e volta a voar – é uma dessas migalhas. Dois meninos, na falta de bola, chutando garrafa pet, enxotados da porta de um bar na rua Aurora – são mais duas migalhas. Do comerciante que dá seu bom dia com sua amabilidade de caixa registradora – caem mais algumas migalhas, estas, sórdidas. O sorvete a escorrer da boca da moça no verão derretente; o amor que se reconheceu multiplicado no perdão; a bala de hortelã trocada no beijo são outras tantas, estas, santas.

Porém há as migalhas do mundo: as que se desprendem do pão das Minas Gerais e do Araguaia, da Venezuela e de Cuba. A todas Adalberto apara com suas mãos de poeta e oferece ao leitor com a verdade e a potência dos versos escritos em guardanapos. Aliás, como registrou Milton Nascimento, a propósito dos poetas de sua cidade – esses catadores de migalhas, que não querem medalhas, nem tambores nem trombetas.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário