quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O ENEM DA EXCLUSÃO DOS POBRES

O segundo dia do ENEM 2017, que já perdeu 3 milhões de inscrições em relação ao último do governo Dilma, confirmou uma tendência que já se revelara no primeiro dia, quando foram avaliadas as áreas de Linguagens e Humanas: o aprofundamento do conteudismo nas questões de Exatas e Ciências da Natureza favoreceu os alunos egressos de escolas privadas.

Seja, por exemplos, em Filosofia (avaliada no primeiro dia), seja em Matemática, a própria imprensa registrou a dificuldade que mesmo professores enfrentaram em resolver certas questões. Isso aponta não para a elevação do nível da prova, mas para a eleição de certos conteúdos que certas escolas trabalharam e outras não.

Ora, o ENEM foi elaborado para avalizar competências e habilidades, não se o aluno se recorda de conteúdos específicos ministrados ao longo de sua formação na Educação Básica. Muitas questões, tanto de Linguagens, Humanas e Redação, quanto de Ciências da Natureza e Matemática privilegiaram a memória de conteúdos tratados anteriormente. As questões interpretativas, marca desse Exame, perderam peso claramente.

Ao invés de se avaliar aquilo que é comum a todos os alunos do Ensino Médio brasileiro, pôs-se em foco aquilo que escolas "top" do sistema privado têm trabalhado - muito além do que é comum a todas as escolas desse nível de ensino.

A insuspeita revista Veja elogiou esta edição do ENEM como a que "valorizou o bom aluno" em prejuízo do "paraquedista". O que ela chama de "bom aluno" é, na verdade, o aluno da escola privada de elite, que deseja uma vaga gratuita na universidade pública; e o que ela chama de "paraquedista" é na verdade o aluno da escola pública, que vinha sendo incentivado a buscar uma vaga (que sempre lhe fora negada) numa universidade paga com o suor do trabalho de seus pais. O MEC do golpe já nem disfarça: o ENEM do golpe é também um golpe contra os filhos dos trabalhadores. 

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

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