segunda-feira, 13 de novembro de 2017

ENEM 2017: O ENEM DO GOLPE É TAMBÉM UM GOLPE


O segundo dia do ENEM 2017 confirmou uma tendência que já se revelara no primeiro dia, quando foram avaliadas as áreas de Linguagens e Humanas: o aprofundamento do conteudismo nas questões de Exatas e Ciências da Natureza favoreceu os alunos egressos de escolas privadas.

Leia esta São Paulo crua.
Seja, por exemplos, em Filosofia (avaliada no primeiro dia), seja em Matemática, a própria imprensa registrou a dificuldade que mesmo professores enfrentaram em resolver certas questões. Isso aponta não para a elevação do nível da prova, mas para a eleição de certos conteúdos que certas escolas trabalharam e outras não.

Ora, o ENEM foi elaborado para avalizar competências e habilidades, não se o aluno se recorda de conteúdos específicos ministrados ao longo de sua formação na Educação Básica. Muitas questões, tanto de Linguagens, Humanas e Redação, quanto de Ciências da Natureza e Matemática privilegiaram a memória de conteúdos tratados anteriormente. As questões interpretativas, marca desse Exame, perderam peso claramente.

Ao invés de se avaliar aquilo que é comum a todos os alunos do Ensino Médio brasileiro, pôs-se em foco aquilo que escolas "top" do sistema privado têm trabalhado - muito além do que é comum a todas as escolas desse nível de ensino.

A insuspeita revista Veja elogiou esta edição do ENEM como a que "valorizou o bom aluno" em prejuízo do "paraquedista". O que ela chama de "bom aluno" é, na verdade, o aluno da escola privada de elite, que deseja uma vaga gratuita na universidade pública; e o que ela chama de "paraquedista", é na verdade o aluno da escola pública, que vinha sendo incentivado a buscar uma vaga (que sempre lhe fora negada) numa universidade paga com o suor do trabalho de seus pais. O MEC tenta disfarçar, mas o ENEM do golpe, é também um golpe contra os filhos do trabalhadores.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

domingo, 5 de novembro de 2017

REDAÇÃO DO ENEM 2017: TEMA TEM ERRO PRIMÁRIO DE PÚBLICO-ALVO


A redação do tema, tal como divulgada pelo INEP, volta-se claramente não ao público do Ensino Médio, mas para os profissionais responsáveis pela formulação de políticas, teorias e práticas relacionadas à educação de pessoas surdas ou com déficits auditivos severos - noutras palavras, volta-se para os agentes públicos e para pedagogos.

Em que pese a pertinência da escolha, o tema da redação do ENEM 2017 ofereceu aos jovens candidatos egressos do Ensino Médio dificuldades que não lhes dizem respeito. Isso porque o tema não é a inclusão de surdos ou do portador de deficiência auditiva severa , nem a necessidade de respeito à pessoa humana com limitações seja de que ordem for. O tema, explicitamente, é "Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil."

Os textos de estímulos oferecidos, que envolveram legislação e informações do INEP, não resolvem o problema de equívoco de público-alvo cometido na redação da temática divulgada ainda durante a aplicação do Exame (insisto, o tema volta-se a educadores, pedagogos, professores, profissionais da educação com nível Superior e gestores do sistema, não a estudantes do Ensino Médio entre 16 e 18 anos em sua maioria).


Leia esta São Paulo crua.
Forçado a propor intervenções para um tema voltado a um público específico (gestores e pedagogos), a tendência do candidato não especialista será, em relação ao tema tal como proposto, tangenciá-lo - e quando o fizer estará correto, pois não cabe a um estudante de Ensino Médio dominar teorias pedagógicas que lhe proporcionem condições de apresentar propostas de intervenção concretas, que sequer estão no horizonte de pedagogos e agentes governamentais atuais. Aliás, quantos estudantes de pedagogia de nossas melhores universidades estariam em condições tratar desse tema tão específico? Aliás, desafio o ministro da educação a redigir esta redação, sem consulta, neste exato momento. Veremos como ele se sai - qual seria sua nota? Aliás, pergunta meu amigo Plínio de Mesquita: "Teriam sido os alunos das escolas privadas amigas da atual gestão do MEC pegos de surpresa"? Noutras palavras, o direcionamento (proibido em concursos públicos) do tema favoreceu quem? 

Sem saber o que fazer com a educação brasileira e menos ainda com a educação para surdos, com medo do MBL e da famigerada Escola Sem Partido, o INEP e o MEC atiram os jovens candidatos do ENEM aos leões, para ver se dessa massa de 6,7 milhões de jovens candidatos extraem luzes que iluminem as cabeças vazias e mal intencionadas que hoje dirigem os mesmos INEP, MEC e governo Temer. Obrigado a realizar esta edição do ENEM também em LIBRAS, INEP, MEC e Governo Temer tiram o corpo de sua responsabilidade e a delegam para jovens, que não têm nada a ver com a péssima qualidade da atual gestão do MEC que, fruto de um golpe de Estado, não consegue dar uma dentro, mesmo quando tenta "fazer média" com a sociedade.

O que ocorrerá na banca de correção do ENEM, em face do tema técnico de nível superior da área de educação mal redigido, é que o critério de pertinência temática terá de ser relativizado, melhor seria dizer afrouxado (melhor para os candidatos), caso contrário uma massa imensa de redações terá pontuação, nesse quesito, muito abaixo da média, puxando a média histórica do Exame, com certeza, para seu pior índice desde que o ENEM foi instituído em 1998. A expressão "formação educacional", em particular, terá de ser considerada com extrema larguesa, pois estudantes de Ensino Médio simplesmente não tem a menor obrigação de dominar as especificidades relativas à pedagogia voltada para surdos, principalmente quando a própria gestão atual do MEC tem tão pouco a dizer sobre esse assunto.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.




Morte aos judeus, aos negros, aos nordestinos, aos gays, aos deficientes: no ENEM pode


Leia esta São Paulo crua.
A presidenta do STF Carmen Lucia entra para a história  como uma das figuras mais asquerosas da República. Ao atender a solicitação da organização fascista Escola Sem Partido, ela permite que sejam praticados nas redações do ENEM (que que caiu de mais de 9 milhões de inscritos para pouco mais de 6,5 milhões) crimes contra a pessoa humana fortemente penalizados pela nossa legislação. Agora a prática da tortura, a injúria racial, o preconceito contra deficientes, idosos, migrantes e imigrantes, a violência contra mulher, a pedofilia entre outros crimes serão pontuados.

Assim, aquilo que não se admite sequer em pichações de muros, e que é objeto de vasta legislação punitiva no Brasil e no mundo, no ENEM será validado. Nossa corte suprema, em seu pior momento, nos oferece um raio X de sua própria estrutura imoral e antiética.

Tudo o que se conquistou em termos de civilização, consagrado em lei, desde o fim da II Guerra Mundial, foi vilipendiado pela mais alta corte do país, que, assim, se associa e dá vitória a uma organização criminosa (Escola Sem Partido), para esfregar na cara dos brasileiros além de sua covardia, o esgoto ideológico, com o qual concorda e o qual legitima.

Os corretores das redações do ENEM deste ano terão de revolver esse esgoto ideológico para pontuar textos que fazem abertamente apologia dos crimes mais abjetos a que mentes perturbadas pelo ódio podem chegar. Não zerada, a redação terá de ser considerada em todos os critérios de correção: tema, estrutura, linguagem, proposta de intervenção, envolvidos nas competências avaliadas. Não contendo erro de português, por exemplo, poderá receber até pontuação máxima em linguagem, embora a linguagem esteja sendo usada para destruir e desmoralizar o próprio Exame.

Diante de um Congresso Nacional roído pela corrupção, de um Executivo fugitivo da polícia e de um Judiciário sócio do crime, vão restando poucas alternativas para a democracia, que não sejam a vias de fato.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

SE HOUVER ELEIÇÕES HONESTAS, VENCEREMOS

O filme de horror que se instaurou no Brasil com o golpe segue firme seu roteiro. Não há um dia, desde a famigerada votação na Câmara Federal, em que fiquemos livres de péssimas notícias, seja no campo político, seja no econômico, seja no social, em que a miséria se generaliza e a violência explode em números eloquentes demais para serem empurrados para debaixo do tapete.

São Paulo nua e crua.
O mal estar ultrapassa em muito os setores da sociedade que apoiaram Dilma e Lula nas últimas eleições, pois os efeitos colaterais do golpe, mal calculados, terminaram por atingir em cheio os mesmos agentes que o promoveram.

Michel Temer e seu PMDB corroído de cupins; Aécio Neves, com seu PSDB convertido em pó; Sérgio Moro e sua reserva de mercado de delações forjadas, denunciados da Espanha; o STF, corte de marajás, identificado com a facilitação da vida de criminosos; o Congresso Nacional, que só vota sob o argumento explícito do dinheiro são miasmas demais para serem engolidos pelas urnas.

Conquistada a normalidade política em 2018, por mais que se esforcem, esses miasmas receberão das urnas o que plantaram. Resta-lhes, por isso, contar com a hipótese de golpear o próprio processo eleitoral de 2018. Há, portanto, apenas duas variantes em jogo: 1a.) o processo eleitoral ocorre normalmente e derrotamos o golpe; 2a.) o golpe se mantém e aprofunda por meio de um novo golpe, agora contra as próprias eleições. Tenho comigo que não terão forças para tanto.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O DINHEIRO SUJO DOS MERCENÁRIOS THINK TANKS

Uma rede alimentada por bilhões de dólares de multinacionais e corporações globalizadas com sede nos EUA se especializou em derrubar governos que ofereçam alguma resistência às estratégias de lucro predatório dessas mesmas multinacionais e corporações.

Sob o mantra do ultraliberalismo selvagem, escondem-se práticas criminosas que vão da fabricação de notícias falsas em escala astronômica nas redes sociais à compra de jornalistas da grande imprensa, passando pelo suborno de membros do Judiciário, do Legislativo e do Executivo de países vulneráveis.
São Paulo nua e crua.
Formada por uma articulação globalizada de órgãos, institutos, movimentos e personalidades de ultradireita, essa rede volta-se em primeiro lugar para a desmoralização e destruição de governos que tenham algum pendor social; num momento seguinte, para o entronamento de governos de direita ultraliberal, cujo programa nada mais é do que a entrega das riquezas dos respectivos países a essas multinacionais e corporações, em proveito obviamente dos EUA.

No Brasil, Instituto Millenium (ligado à rede Globo), movimentos como MBL e MCC (Movimento Contra a Corrupção), são células cancerígenas dessa rede. Como essas empresas e corporações não podem abertamente assumir seus propósitos, empregam mercenários digitais da política, que, enrolados em bandeiras nacionais, traem seus países por um preço que envergonharia Judas. (Leia aqui o que o próprio Insituto Millenium fala sobre think tanks).

Empregando semelhante estratégia, cujo motor principal é a disseminação viral de notícias falsas, a ultradireita racista alemã saltou dos magros 5%  para eloquentes 13%, nas eleições deste domingo. A mentira, a provocação, o suborno, o dinheiro de origem disfarçada e obscura são a placenta dessa rede que empurra o mundo para uma radicalização de consequências imprevisíveis.

Convido os amigos e lerem a esclarecedora reportagem do The Intercept Brasil, Esfera de Influência. Para quem tem dúvida do papel dos EUA na destruição da democracia na América Latina e no mundo, eis aí uma oportunidade de pôr essa dúvida a prova.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

EM BUSCA DO JUDAS PERFEITO

Sérgio Moro, o suposto juiz, nas palavras do jurista Bandeira de Melo, depende hoje totalmente de um judas perfeito para apanhar Lula em sua tocaia parajurídica. Suas estratégias sutis como rinocerontes apoiaram os pés no solo pantanoso de delações extraídas a fórceps - uma mais inverossímil que a outra, todas vazias de provas materiais, contraditórias e cujos enredos mal ajambrados envergonharia um estudante de Ensino Fundamental.

A dependência desse curinga é tal que Moro já abriu mão das aparências, já não se importando sequer com a verossimilhança. No depoimento patético de Palocci desta semana sequer preocupou-se com um bom ensaio: o depoente literalmente trouxe colinhas de papel com resposta pronta para cada respectiva pergunta.
São Paulo nua e crua.
Porém o teatrinho mal ensaiado, quando filmado, se torna bizarro. O suposto juiz pergunta, após o réu tecer acusações as mais pesadas que pode contra Lula: "O senhor estava nessa reunião", ao que Palocci responde: "Não, Excelência, mas no dia seguinte o presidente Lula me chamou e me contou". Noutra oportunidade, a mesma pergunta, agora sobre outra acusação. A resposta? A mesma: "Não estava, mas o presidente me contou no dia seguinte".

Palocci foi mais outro judas falho. Resta saber se receberá, ainda assim, os trinta dinheiros a que se candidatou, ao pôr em curso sua "delação implorada", na feliz expressão da presidenta Dilma - em resposta a suas bizarrices. Moro, esse mal jurista de uma nota só (Lula Lula Lula), terá de continuar sua busca por outro judas perfeito, pois não lhe resta outro recurso para enfrentar Lula. Não se enganem: esse cavalheiro já se encontra no mundo perturbado e sombrio da monomania.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O PACTO DE SANGUE MORO-PALOCCI

O ministro de Lula mais elogiado por FHC, Serra, Aécio e Alckmin, tendo inclusive palestrado sob aplausos para plateia tucana, enfim revela seu amor verdadeiro. Ao depor ao suposto juiz Sérgio Moro, sem provas do que diz, sustenta ter havido um "pacto de sangue" entre o PT e Lula com a empreiteira Odebrecht.
Porém o pacto por ele "revelado", à moda de filme infantil da sessão da tarde da rede Globo, esconde muito mal o verdadeiro, aquele que ensejou sua fábula infantil, contada a partir de "colinhas" de recortes de papel, e de enredo tosco: o pacto entre ele e o vendedor de sentenças do mercado de delações de Curitiba, que para lhe reduzir a pena, exige em seu depoimento o de sempre: a citação de Lula, a qualquer pretexto, com ou sem provas.
São Paulo nua e crua.
Palocci foi na era Lula a voz do mercado dentro do governo, todos o sabem, ele jamais fez questão de disfarçar, nem Lula tinha outro papel para ele a não ser esse. Afinal, ainda que em um governo de esquerda, num regime capitalista com um pé na escravidão e o resto do corpo na selvageria neoliberal, alguém tinha que ser o embaixador junto aos donos do "mercado" - e, nesse caso, ninguém mais qualificado do que um agente que carregava uma estrelinha do PT na lapela do paletó e que perseguia outra estrela mais sedutora e brilhante: a do dinheiro, que lhe garantia livre trânsito entre banqueiros e aplauso fácil de tucanos.
Palocci pede sempre mais uns minutinhos para continuar dedurando.

Quem não conhece a carreira de Palocci talvez se abisme agora com sua fábula infantil e seu pacto de sangue com Sérgio Moro. Porém, quem acompanha a política brasileira se surpreende por outra razão: a de ele não ter roído a corda há mais tempo, pois a estrela de Joaquim Silvério dos dos Reis estava cravada em sua testa desde quando, ainda no governo Lula, insinuou-se ao "mercado" como possível sucessor de Lula na presidência. Palocci é como aqueles conselheiros servis dos filmes de aventura da sessão da tarde da Globo: por sob seu rastejar, mora o frasco de veneno que deitará na taça do mocinho da história. E, como nesses filmes, se dará mal.

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.



terça-feira, 22 de agosto de 2017

UM PAÍS DOENTE SANGRA

A agressão sofrida pela professora Marcia Friggi, na cidade catarinense de Indaial, choca pela imagem, que ela teve a coragem de postar nas redes sociais. Porém, infelizmente, esse é o ápice previsível da rotina de ofensas verbais e atitudinais, e também de ameaças veladas ou explícitas, que tantos de nós professores das redes públicas e privadas do país sofremos todos os dias.

A agressão sofrida pela professora não parou no soco: nas redes sociais, embora em minoria, uma horda de linchadores virtuais entrou na área de comentários da postagem feita por ela para a achincalhar em virtude de sua postura política de esquerda.

Isso decorre do completo desprezo de governantes, de donos de escolas e de pais de alunos pela escola, convertida ora em depósito de crianças marcadas na mão para não repetir refeição, ora em espaço de explosão de conflitos não resolvidos no seio da família, ora em campo de descarga de tensões sociais, potencializadas pelo atual estágio do capitalismo ultraconsumista, que forma uma geração empurrada para a força bruta, educada na intolerância e incentivada ao linchamento.

A lógica do aluno que agrediu covardemente a professora de língua portuguesa e literatura é a mesma de Sérgio Moro, para o qual o que vale é o argumento da força, não a força dos argumentos. Abandonados os protocolos mínimos de civilidade, o que prevalece é o ódio, cego, furioso, que, não encontrando barreiras claras e inequívocas, avança sobre o outro para aniquilá-lo - sem contudo esgotar seu potencial destrutivo e caótico nesse ato de aniquilação.

Uma São Paulo que você tem que conhecer.
O que fez esse jovem é o mesmo que fez uma pequena multidão ensandecida no Guarujá há pouco tempo. Divulgada pelas redes sociais a imagem de uma suposta pedófila, uma senhora foi linchada até a morte. No mesmo dia ficou provado que a vítima cometera o grave crime de ser parecida com a acusada.

Nós professores, todos os dias, assistimos a um mar de gente passar a nossa frente nas extenuantes aulas que ministramos. Salvo raríssimas exceções, é preciso reconhecer, esse mar enfrenta uma ressaca colossal. É nesse mar que nos encontramos todos os dias, professores e estudantes - e é nele que os sinais de um país que se afunda são mais eloquentes, porque gritam... e sangram.


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

sábado, 19 de agosto de 2017

GALINHA LOUCA NÃO GOSTA DE OVOS

Miguel Costa, que foi secretário de cultura de Carapicuíba (SP), filho do legendário general Miguel  Costa (cuja coluna compôs depois a não menos legendária Coluna Prestes, e que dá nome a estação de trem da CPTM de Carapicuíba), nos idos dos anos 80, já bem idoso, me contou como teria nascido o apelido "galinhas verdes", dado aos integralistas - versão brasileira do fascismo.

Segundo ele, numa reunião dos integralistas no Theatro Municipal de São Paulo, no início da década de 1930, um militante da juventude comunista, do alto de um dos balcões, atirou uma galinha pintada de verde sobre os participantes. A galinha, segundo ele, voava mal e curto, mas teria dado trabalho para ser apanhada pelos os camisas-verdes, furiosos com a brincadeira, que os destruiu pela piada.

Anos depois, ouvi a mesma história e um idoso militante comunista de São Paulo, porém a versão é de que a reunião havia se dado nas escadarias do Theatro Municipal, não dentro, e que a galinha fora atirada de uma das janelas superiores do mesmo Theatro Municipal, com igual efeito humorístico de caçada furiosa à galinha verde.

Muitos anos depois, no Rio de Janeiro, ouvi a versão da escadaria, porém o Theatro teria sido o do Rio de Janeiro, não o de São Paulo.

Seja como for, o fascismo brasileiro desde a origem ligações diretas com galinhas enlouquecidas pintadas de verde. A data de 7 de outubro de 1934 é marcada pelo confronto entre sindicatos, associações e organizações de esquerda comunistas, trotskistas e anarquisatas contra os integralistas, na praça de Sé, em São Paulo. A efeméride ficou conhecida como "Revoada das Galinhas Verdes"

Segundo Mário Pedrosa:

Toda a esquerda se uniu contra a manifestação integralista que seria realizada naquele dia. O objetivo dos integralistas era atacar a organização da classe operária, a sede da Federação Sindical de São Paulo e os sindicatos que tinham sede no edifício Santa Helena, na frente do qual haviam planejado o desfile. Nós lutamos contra os fascistas e impedimos a realização da manifestação.

Uma São Paulo que você tem que conhecer.
Nestes dias de agosto e 2017, os fascistas reencontraram sua histórica ligação com galináceos: Dória, Antônio Carlos Magalhães Neto e Bolsonaro, em busca ensandecida por holofotes, conquistaram, diante das câmeras, saraivadas de ovos voadores.

Ainda bastante jovens, eu e um amigo, agora professor e artista plásitico Claudinei Roberto, conversávamos sobre ações violentas de neonazistas em São Paulo. O pai dele, sr. Gumercindo, já falecido, cantor, músico e sambista da velha guarda, interrompeu nossa conversa e proclamou: "Esses tipos aí, deixem vir que a gente avacalha".

A melhor arma contra essa gente, certo estava seu Gumercindo, é a galhofa. Observando bem cacarejo, gestos, poses e caretas, Hitler e seus seguidores não parecem mesmo galinhas loucas?


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

INTERROMPER O GOLPE ANTES QUE ELE INAUGURE UM CICLO LONGO

O golpe de Estado em curso tem continuação no ano de 2018. Sem coragem para interrompê-lo, ele iniciará um outro ciclo de longuíssimo prazo.

A fase do golpe de Estado em que nos encontramos articula a transição do atual ciclo, para uma fase longa, que tem no ano de 2018 um ponto crucial de viragem. Não é a toa que Dória já se lança em campanha antecipada: ele quer ser a ponta de lança de um longo ciclo obscurantista, reacionário e de prevalência do pensamento de direita neoliberal.
http://www.lojanovaalexandria.com.br/catalogsearch/result/?q=era+uma+vez+no+meu+bairro
São Paulo em romance.
Se é muitíssimo difícil interromper o golpe agora, não só é possível como é absolutamente necessário abortar o ciclo que eles pretendem iniciar em 2018. Isso impõe pressão crescente sobre o governo Temer, de modo a desestabilizá-lo a todo custo, pois ele é peça chave nessa transição ultraconservadora que se gesta no maior país da América Latina.

As estratégias dos partidos de esquerda, por isso, precisam intensificar a mobilização popular, sem a qual o país entrará cego no ano 2018 - e sairá dele surdo, mudo, mutilado e dilacerado por movimentos de ultradireita.


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

domingo, 6 de agosto de 2017

O TRIBUNAL NAZISTA DA FAMÍLIA MESQUITA

Empregando a mesma estratégia e prática dos nazistas para eliminar judeus, jornal O Estado de S. Paulo inicia a solução final contra Lula, ao pôr em cena Thompson Flores, presidente Tribunal Federal da 4a. Região, instância da justiça encarregada de, na prática, julgar o presidente Lula pela segunda vez por um crime sem provas.

Antecipando o próprio julgamento, Thompson Flores se adianta aos desembargadores do TRF- 4 que analisarão os recursos da defesa do ex-presidente da República, condenando Lula no tribunal da família Mesquita. A entrevista do presidente do Tribunal Federal da 4a. Região, Thompson Flores é inequívoca: seu resumo é a condenação fora dos autos, pelas páginas do jornal, do ex-presidente Lula, seja comunicando a sentença já proferida em off, seja agindo para que colegas sentenciem sob a coação da imprensa golpista.
Uma São Paulo que você tem que conhecer.
Como não poderia entrevistar os próprios desembargadores responsáveis pelo julgamento de Lula em segunda instância, uma vez que eles são impedidos de se pronunciarem em público sobre o processo em curso, o jornal da família Mesquita procurou usar o próprio presidente do Tribunal como uma espécie de porta-voz qualificado do colegiado que julgará Lula e como menino de recados dos golpistas.
Justiça brasileira não acerta nem na placa do "Edifícil".
Na entrevista, Thompson elogia a decisão de Moro como "irrepreensível" e, embora reconheça a contradição de não se ter provado na sentença de 1a. Instância a propriedade do Triplex, declara que a confirmaria se fizesse parte do colegiado responsável pelo julgamento dos recursos.

O Judiciário vai assim confirmando sua vocação reacionária de guardião do cofre da burguesia.

O jornalista Artur Scanove revela que Thompson tem relações diretas com setores golpistas das Forças Armadas.

Consulte a entrevista clicando aqui.

Grato pela leitura. Entre uma correção de prova e outra, vou escrevendo estes textos.

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

ESPERANÇA, CADÊ VOCÊ?

Eu queria enviar hoje uma mensagem de esperança, mas não vai ser possível, não. Não há esperança à vista. Porém, pensando bem, lutar com alegria quando há uma esperança nos esperando na esquina para tomar uma cerveja é fácil. Quero ver é lutar com a mesma garra sem esperança nenhuma nem ali na esquina, nem em nenhum horizonte próximo, por mais que a gente caminhe na direção do sol.

O tempo que vivemos hoje no Brasil, é preciso assumir essa conta dolorosa, não é de esperança - nana, nina nana. Quem está caçando esse combustível no Facebook, no Instagram, no zapzap vai dar com os burros n'água.

Amigo, amiga, não temos que buscar esperança nenhuma, porque ela escafedeu-se deste país já faz algum tempo. Temos, isso sim, que oferecer nossa fé cega na vida e nas voltas que o mundo dá. Temos que oferecer nossa garra de resistir a todo custo, nossa vontade louca e viver do jeito que der, mesmo se não der.
Um romance de resistência
Estamos não às vésperas de uma aurora, mas mergulhados num tempo captado com delicadeza por Mário de Andrade em Meditação sobre o Tietê: "É noite. E tudo é noite".

Tem muita gente afoita por qualquer esperança vagabunda e ilusória. Mas esse tipo de esperança não tem valor, é breve, não presta, e dá azar.

A esperança que interessa está escondida atrás dessa noite, que precisamos atravessar com paciência, e cuidado, meio às cegas, passo a passo, mas sem parar - e mesmo sem expectativas de encontrá-la lá.

Quanto durará essa noite? Só dá para saber se a atravessarmos até o fim. E para a atravessarmos até o fim, é preciso que estejamos, no mínimo, vivos. Façamos, então, um pacto pela vida: resistir, até que a noite desista de nós.

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O JORNALISMO AFUNDANDO O BRASIL NA FOSSA

Se o jornal inventa uma infame calúnia, ela lhe foi ditada. Perante o indivíduo que se queixa, ficará quite pedindo desculpas pela grande liberdade. Se for chamado aos tribunais, queixar-se-á de que não lhe foi pedida retificação alguma; mas ele a pedirá? Não, recusa-a rindo, considera seu crime uma bagatela. Enfim, achincalhará a vítima quando ela triunfar. Se for punido, se ele tem muitas multas a pagar, apontará o queixoso como se se tratasse de um inimigo das liberdades, do país e das luzes. Dirá que fulano é um ladrão, ao explicar que é o mais honesto homem do reino. Assim, seus crimes: bagatelas! Seus agressores: monstros! E ele pode em dado tempo fazer crer em tudo que desejar às pessoas que o leem todos os dias. Além disso, nada que o desagrade é patriótico, e jamais estará errado. Ele se servirá da religião contra a religião, da Carta contra o rei; achincalhará a magistratura quando a magistratura o incomodar e a elogiará quando ela tiver servido às paixões populares. Para conseguir os assinantes, inventará as mais comoventes fábulas, pavonear-se-á como o palhaço Bobèche. O jornal serviria o seu próprio pai cru, sem mais tempero que o sal de suas zombarias, para não deixar de interessar ou divertir seu público. Será o ator colocando as cinzas de seu próprio filho na urna para chorar verdadeiramente, a amante sacrificando tudo a seu amado. 
Balzac, em Ilusões perdidas revela as tripas da imprensa.
A ferida é incurável, será cada vez mais maligna, cada vez mais insolente; e quanto maior for o mal, mais ele será tolerado, até o dia em que a confusão se instalará nos jornais, pela sua abundância, como em Babilônia. Todos nós sabemos que os jornais irão mais longe que os reis em ingratidão, mais longe que o mais sujo comércio em especulações e em cálculos, devorando nossas inteligências vendendo-lhes todas as manhãs sua matéria cerebral; mas ali escrevemos à maneira daqueles que exploram uma mina de mercúrio sabendo que ali morrerão.

O jornalismo tem mil pontos de partido semelhante. Trata-se de uma grande catapulta colocada em movimento por pequenos ódios. Você tem ainda vontade de casar? Vernou [infeliz no casamento] não tem mais coração, o fel a tudo invadiu. É por isso o jornalista por excelência, um tigre com duas patas que a tudo devora, como se suas penas [no séc. XIX escrevia-se com penas de aves] tivessem raiva. 
– O senhor realmente se importa com o que escreveu? – disse-lhe Vernou com um ar de zombaria. – Mas somos comerciantes de frases, e vivemos de nosso comércio. Quando o senhor desejar fazer uma grande e bela obra, um livro, enfim, ali sim poderá colocar suas ideias, sua alma, a ela se apegar, defendê-la; mas os artigos, lidos hoje e amanhã esquecidos, valem apenas, a meus olhos, o que se paga por elas. Se o senhor dá importância a tais tolices, fará então o sina da cruz e invocará o Espírito Santo para escrever um prospecto! [...] Todos pareceram surpresos com os escrúpulos de Lucien [que inicialmente se recusou a publicar mentiras] e acabaram por lhe incendiar a toga pretexta [rito de passagem, entre patrícios, da adolescência em Roma] para lhe oferecer a toga viril dos jornalistas.

Trechos do romance Ilusões perdidas, de Honoré de Balzac, publicado pela primeira vez em 1843.

FONTE: Balzac, Honoré de. Ilusões perdidas. Vol. I. Trad. Leila de Aguiar Costa. São Paulo: Abril, 2010; pp. 367, 368, 393, 433, respectivamente.

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

VOCÊ QUER SAÍDA MILAGROSA? EU, NÃO!

Há quem sonhe, deseje, torça e delire por uma solução rápida, salvadora e milagrosa para a atual crise brasileira, eu, não. Desse buraco em que o golpe de Estado nos afundou não se sai nem de uma vez, nem por passe de mágica.

A atual crise e seu desenrolar tem um caráter pedagógico que um eventual "milagre" econômico ou político desperdiçaria. Quando acreditou no golpe ou se manteve neutra em face da deposição de Dilma Rousseff, grande parcela da população apostou sua sorte numa espécie de tudo nada: era só tirar a presidenta que tudo melhoria. Agindo assim, considerou seu voto com o mesmo peso de uma carta de baralho. Mas eleições não são jogo de azar, em que uma rodada ruim pode ser salva por uma onda de sorte.

Na política não há sorte: quando apostou seu emprego, seu poder de compra, sua perspectiva de futuro no cassino viciado do atual Congresso Nacional, o brasileiro que se vestiu de amarelo para xingar Dilma Rousseff e pedir de intervenção militar ao linchamento de quem usasse camisa vermelha, agiu movido por impulsos os piores imagináveis, o principal deles o ódio.

O prolongamento da crise e a falência daqueles nos quais os raivosos da camisa amarela apostaram suas fichas permite que eles, passado o surto psicótico do ódio insuflado pela rede Globo, assistam as consequências de suas ações, reflitam sobre elas e assumam sua parte nesse latifúndio de insensatez.

Sob esse particular, a realidade não tem sido piedosa para com eles - e, por tabela, para com todos os demais: não há um só dia em que as más notícias políticas, econômicas e sociais, fruto da irresponsabilidade para com o voto, não estampem o noticiário dos mesmos meios de comunicação que prometeram o paraíso pós-Dilma.

Não, eu não quero que esse filme seja interrompido agora: quero que ele passe sem cortes, até o fim, e que todos fiquem em suas poltronas até os créditos finais, para que, ao acenderem-se as luzes do cinema, cada qual reflita sobre seu próprio papel nesse filme e nos próximos que virão, ah, virão sim! Até porque "O mundo não acaba hoje, já dei uma olhada na previsão do tempo", disse o poeta.

Por isso, enquanto muitos sonham uma saída milagrosa, eu não: quero que o filme passe por inteiro, cena a cena, quadro a quadro, até as luzes do cinema se acenderem e o lanterninha pôr o último retardatário renitente para fora.

Grato pela leitura.
Meus artigos são escritos entre pilhas de provas e trabalhos de meus alunos.  
  

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

sábado, 1 de julho de 2017

DO ÓDIO À ESPERANÇA NÃO SE VAI DE UMA HORA A OUTRA

Não se vai da aprovação ao ódio de uma hora para a outra. A rede Globo, a revista Veja e seus parceiros traçaram um longo percurso de manipulação do inconsciente das pessoas de modo a pô-las em movimento irracional contra os governos Lula e Dilma. Para isso contaram com o apoio da Polícia e do Ministério Público Federal, do STF, do Congresso Nacional e do inescrupuloso juiz Sérgio Moro.

Quando estouraram as manifestações de 2013, o governo Dilma contava com alta popularidade e a economia respondia com bons resultados (o PIB estava na casa dos quase 2,5 trilhões de dólares - hoje, caiu para próximo de 1,5 trilhão). Insuflando e aproveitando essa explosão irracional, sem base na economia, a rede Globo, seguida por Veja, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e outros órgãos da mídia monopolista, partiu para a ofensiva, intensificando o bombardeio midiático contra Dilma e, por extensão, Lula e a esquerda no poder.

Da aprovação ao governo ao ódio que estourou em 2015, e que está na base do Golpe, a rede Globo capitaneou a manipulação do inconsciente de vasta parcela da população, que sem mecanismo de defesa contra essa manipulação, viu sua esperança e aprovação pelo governo converter-se em apatia, depois em angústia, tristeza, decepção, raiva e por fim ódio - essa força irracional e destrutiva que encontra combustível não  na consciência, mas exatamente nas camadas mais profundas de nosso inconsciente, onde moram nosso medos, impulsos incontroláveis sem o aporte da consciência, fantasias, pesadelos e instintos os mais poderosos em estado bruto.

Esperança aprovação  apatia angústia tristeza decepção → medo  raiva ódio.

Sob esse ponto de vista, as decisões que o STF faz questão de esfregar na cara de todos os brasileiros são um choque de realidade, cujo efeito é positivo e cujo sentido é inverso do que trilharam até o golpe, tangidos como gado pelos mecanismos manipulatórios da grande mídia.
Porém não se vai do ódio à esperança de um salto: será necessário cruzar a dolorosa via crucis que passa pela raiva, a decepção, a tristeza:

Ódio  raiva → medo  decepção  tristeza  angústia  apatia  aprovação  esperança.

As fantasias terão de cair todas por terra, para que, diante da realidade nua e crua, o brasileiro ponha a mão na consciência (ele que estava transido pela irracionalidade), e se mova no sentido da esperança, não sem antes ter confrontado todos os seus fantasmas açulados pela mídia, os quais ele perseguiu como em um surto psicótico.

A escala acima pode ser mais detalhada, porém penso que uma pequena parte da população ainda vive o surto do ódio (parcela identificada com Bolsonaro), porém a imensa maioria me parece ter-se descolado do ódio e da raiva e se encontra hoje, após o papelão do STF no caso Aécio-Rocha Loures, no grau da profunda decepção, a caminho da tristeza e da angústia, mas num sentido progressivo, que se as forças democráticas souberem impulsionar, pode se converter em sentimento e desejo de mudança, outro nome da esperança, polo oposto do ódio.

Em que ponto da escala você se encontra?

Grato pela leitura.
Meus artigos são escritos entre pilhas de provas e trabalhos de meus alunos.  
  

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.